AMIG

AMIG
Notícias

A (in)segurança das barragens

Folha de S.Paulo

Cristina Serra*

Nova lei não alterou brecha crucial na fiscalização

O Congresso aprovou, e o presidente sancionou, a nova política nacional de segurança de barragens de mineração. Perdeu-se uma excelente oportunidade de aperfeiçoar a fiscalização para tentar evitar a repetição de tragédias como a de Mariana (2015) e a de Brumadinho (2019).

A nova lei não alterou uma brecha crucial na fiscalização. Investigações revelaram graves suspeitas de irregularidades na elaboração dos laudos de estabilidade das barragens das mineradorasSamarco e Vale.

Por que o laudo é essencial? Porque é o documento que as empresas apresentam aos órgãos fiscalizadores atestando que sua barragem está segura.

Aí temos dois problemas. Primeiro: o laudo é elaborado por auditor contratado pela mineradora, configurando relação comercial que pode gerar conflito de interesses. Segundo: se o laudo atesta a segurança, a barragem vai para o fim da fila da inspeção in loco. Na prática, esse sistema autodeclaratório faz com que a própria empresa determine se receberá ou não a visita dos fiscais. Nos dois casos, as empresas tinham os laudos em ordem. Deu no que deu.

A solução desse nó não é fácil. Mas o Congresso nem sequer enfrentou a questão. Dado o peso econômico e político das mineradoras, não é difícil imaginar o porquê. É bem verdade que a nova lei aumentou o valor das multas, antes um trocado. Mas Bolsonaro vetou o trecho que destinava o dinheiro para o caixa do órgão federal fiscalizador, a Agência Nacional de Mineração, que se vê à míngua para inspecionar mais de 700 barragens.

Os dois desastres somados mataram 299 pessoas e poluíram dois importantes rios do Sudeste: Doce e Paraopeba. Daqui a menos de dois meses, Mariana completará cinco anos. Os três povoados mais atingidos não foram reconstruídos, e indenizações ainda são discutidas. Estudos recentes mostram altos níveis de toxicidade no rio e em sua foz, no Atlântico, com graves impactos para a saúde humana, flora e fauna. O processo criminal anda a passos de cágado, e a tragédia se perpetua dia após dia.


Cristina Serra

Cristina Serra é jornalista.

Publicações Relacionadas


Vale recupera alvará de funcionamento em Congonhas
Saiu na Mídia

Vale recupera alvará de funcionamento em Congonhas

Vereadores cobram punições à Braskem e reparações justas às famílias nos bairros afetados pela mineração
Notícias

Vereadores cobram punições à Braskem e reparações justas às famílias nos bairros afetados pela mineração

Mineração ilegal se consolida como eixo do crime organizado ambiental em MT
Notícias

Mineração ilegal se consolida como eixo do crime organizado ambiental em MT

Investimentos na mineração devem chegar a US$ 76,9 bilhões até 2030 e impulsionam projetos no Pará e em Minas
Notícias

Investimentos na mineração devem chegar a US$ 76,9 bilhões até 2030 e impulsionam projetos no Pará e em Minas