Mercado de minério de ferro entra em 2026 sob pressão e acende alerta para arrecadação da CFEM
Com preços do minério projetados abaixo de US$ 100 em 2026, a arrecadação do royalty tende a operar sob maior pressão, exigindo cautela dos municípios mineradores e afetados, avalia a AMIG Brasil
Após um ciclo marcado por elevada volatilidade, o mercado global de minério de ferro caminha para 2026 sob um cenário de preços mais pressionados, demanda ainda enfraquecida e aumento da oferta internacional. Para o Brasil — segundo maior produtor mundial e altamente dependente da arrecadação da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM) —, o momento exige atenção redobrada por parte de estados e municípios mineradores e afetados. A análise acaba de ser apresentada no Boletim Econômico produzido e divulgado pela AMIG Brasil – Associação Brasileira dos Municípios Mineradores.
Em 2025, o país arrecadou aproximadamente R$ 7,9 bilhões em CFEM, crescimento de pouco mais de 6% em relação a 2024, quando a receita somou R$ 7,4 bilhões. O minério de ferro manteve sua posição como principal fonte da compensação, respondendo por cerca de 70% do total arrecadado, o que deixa estados e municípios mais dependentes do desempenho do mercado de minério de ferro.
Apesar do avanço da arrecadação, o desempenho de 2025 ocorreu em um ambiente de queda nos preços internacionais do minério. A cotação média do produto com teor de 62% de ferro ficou em US$ 101,98 por tonelada, retração de 7,6% em relação a 2024, quando o valor médio foi de US$ 110,34.
Ao se observar um horizonte mais amplo, entre 2020 e 2025, o minério de ferro acumulou uma perda aproximada de 7,5%, mesmo considerando a forte valorização registrada em 2021, período marcado pelos efeitos da pandemia, quando as cotações atingiram os níveis mais elevados da série histórica.
Somente no segundo trimestre de 2025, o minério acumulou uma queda de 6,5%, com a menor cotação registrada em junho, quando o preço encerrou o mês em torno de US$ 95,20 por tonelada, evidenciando a tendência de acomodação do mercado em patamares mais baixos.
Câmbio amenizou perdas, mas não elimina riscos estruturais
Um fator que contribuiu para sustentar a arrecadação da CFEM em 2025 foi o comportamento do câmbio associado ao aumento no volume de produção. “Em 2025, o Brasil destinou ao mercado externo, 416 milhões de toneladas de minério de ferro, um aumento no volume de 7% em relação a 2024. Apesar da queda dos preços internacionais, a valorização do dólar atuou como elemento de compensação. A moeda norte-americana encerrou o ano cotada a R$ 5,59, acima dos R$ 5,39 registrados em 2024.
Esse movimento contribuiu para mitigar parte dos impactos negativos sobre a geração de receitas, reduzindo os efeitos da retração dos preços do minério sobre a base de cálculo da CFEM.
O câmbio funcionou como um amortecedor importante em 2025. Mesmo com a queda do preço internacional do minério, a valorização do dólar ajudou a preservar a arrecadação, especialmente nos municípios mineradores. No entanto, conjuntural, que não elimina os riscos estruturais do mercado para os próximos anos”, avalia Luciana Mourão, consultora econômica da AMIG Brasil.
Projeções para 2026 indicam novo ciclo de ajuste
As projeções para 2026 reforçam a leitura de um mercado mais desafiador. Estimativas recentes elaboradas a partir do consenso de analistas internacionais, sistematizadas pela consultoria GMK Center, indicam que o preço médio anual do minério de ferro na China deverá recuar para cerca de US$ 94 por tonelada.
Esse patamar representa uma queda aproximada de 7% em relação à média de 2025, de cerca de US$ 101 por tonelada, consolidando um movimento de ajuste após os picos observados nos anos anteriores.
As estimativas, contudo, apresentam variações relevantes entre instituições. O banco global Citi projeta um cenário mais conservador, com preços em torno de US$ 85 por tonelada, enquanto a Vale trabalha com uma estimativa de até US$ 100 por tonelada. O banco de investimento Goldman Sachs prevê preço médio de US$ 93, enquanto o banco mundial J.P. Morgan e a instituição financeira BMI apontam US$ 95, e a agência de classificação de risco Fitch Ratings estima US$ 90 por tonelada.
No mercado futuro, os contratos negociados na Bolsa de Singapura, com vencimento em dezembro de 2026, estão sendo cotados em torno de US$ 95 por tonelada, sinalizando a expectativa predominante dos agentes para o período.
Segundo análises do GMK Center, valores próximos a US$ 94 por tonelada são considerados sensíveis do ponto de vista econômico, pois se aproximam do ponto de equilíbrio para diversos produtores globais, sobretudo aqueles com custos operacionais mais elevados.
“Quando o minério opera próximo do ponto de equilíbrio, qualquer choque adicional — seja de demanda, oferta ou câmbio — pode gerar impactos significativos sobre a produção e, consequentemente, sobre a arrecadação pública. Para os municípios dependentes da CFEM, isso exige planejamento e cautela”, destaca Luciana Mourão.
Oferta crescente e demanda chinesa seguem no radar
Entre os principais fatores que sustentam esse cenário de preços mais baixos está a demanda ainda enfraquecida por aço na China, principal mercado consumidor mundial de minério de ferro. A recuperação do setor imobiliário chinês segue limitada, reduzindo o ritmo de consumo do insumo.
Além disso, o mercado se prepara para a entrada em operação do projeto Simandou, na Guiné, que deverá adicionar cerca de 20 milhões de toneladas de minério de ferro de alta qualidade e baixo custo ao mercado internacional, aumentando a oferta global.
Outro fator relevante é a expectativa de que a China implemente, a partir de janeiro de 2026, um sistema de licenciamento para exportações de aço, o que pode resultar em redução da produção siderúrgica e, por consequência, da demanda por minério de ferro.
Os analistas também alertam que, embora possa haver alguma sustentação de preços no primeiro semestre de 2026, existe a possibilidade de nova pressão de baixa no segundo semestre, com cotações podendo se aproximar de US$ 90 por tonelada.
Impactos diretos sobre a CFEM e finanças locais
Diante desse contexto, o cenário projetado para 2026 reforça a necessidade de prudência no planejamento orçamentário dos entes públicos, especialmente daqueles cuja arrecadação é fortemente influenciada pela CFEM.
A combinação entre preços internacionais mais baixos, incertezas quanto à demanda global e oscilações cambiais poderá impactar diretamente as receitas municipais, exigindo acompanhamento constante do mercado e estratégias de mitigação de riscos fiscais.
“A CFEM é extremamente sensível ao ciclo das commodities. Um cenário de preços mais baixos em 2026 tende a pressionar as receitas, sobretudo se não houver um movimento compensatório do câmbio. O Banco Central projeta a cotação da moeda estrangeira na casa de R$ 5,50. Por isso, é fundamental que estados e municípios evitem decisões baseadas em picos de arrecadação e adotem uma postura mais conservadora”, conclui Luciana Mourão.
A AMIG Brasil alerta que, em um ambiente global cada vez mais volátil, o desempenho do mercado de minério de ferro em 2026 deverá funcionar como um teste importante para a sustentabilidade fiscal das regiões mineradoras brasileiras — reforçando a urgência de diversificação econômica e planejamento de longo prazo.
Confira a íntegra do Boletim Econômico aqui.