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Brumadinho completa sete anos sem justiça, sem reparação plena e sem mudanças reais
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Brumadinho completa sete anos sem justiça, sem reparação plena e sem mudanças reais

Sete anos após o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), a tragédia-crime que matou 272 pessoas segue como um marco doloroso da incapacidade do Estado brasileiro de transformar desastre em aprendizado, segundo a AMIG Brasil – Associação Brasileira dos Municípios Mineradores. A entidade ressalta que o tempo avançou, acordos bilionários foram anunciados, portais de transparência criados e discursos oficiais repetidos, mas a realidade nos territórios minerados e afetados revela um cenário de lentidão, falhas estruturais e ausência de mudanças profundas no modelo de fiscalização e governança da mineração.

Para a AMIG Brasil, Brumadinho deveria ter se tornado um divisor de águas. “A tragédia precisava ter sido um exemplo para o país. Governo Federal e governos estaduais deveriam ter adotado medidas firmes para que isso nunca mais acontecesse. Sete anos depois, o que vemos é a repetição dos mesmos erros, com impunidade e fragilidade institucional”, afirma Marco Antônio Lage, presidente da entidade.

Embora a mineração seja um dos pilares da economia nacional, para a AMIG Brasil o setor continua operando sob fiscalização insuficiente com uma Agência Nacional de Mineração (ANM) falida, omissão do poder público e um modelo que concentra riscos e custos nos municípios minerados, enquanto os benefícios permanecem desigualmente distribuídos. “O Brasil segue repetindo práticas que custam vidas, destroem territórios e corroem a confiança social na atividade mineral”, avalia Marco Antônio Lage.

Essa opinião também é compartilhada por parte dos brasileiros. Pesquisa do PoderData realizada entre 27 e 30 de dezembro de 2025 revela que 52% dos brasileiros são favoráveis à prisão preventiva de ex-dirigentes da Vale e de responsáveis técnicos pelo rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), ocorrido em janeiro de 2019. O levantamento também aponta que 80% dos entrevistados consideram a atuação da Justiça lenta ou omissa na responsabilização dos envolvidos na tragédia, que deixou 272 mortos.

O estudo ouviu 3.200 pessoas em 111 municípios distribuídos pelas 27 unidades da Federação. A margem de erro é de 1,9 ponto percentual, com nível de confiança de 95%.

Além da percepção generalizada de impunidade, a pesquisa evidencia o receio de que crimes semelhantes voltem a acontecer. Para 68% dos entrevistados, uma tragédia como a de Brumadinho pode se repetir no Brasil, indicando desconfiança tanto na capacidade de fiscalização e prevenção do Estado quanto nas práticas de segurança adotadas pelas empresas do setor.

Acordo de reparação

Mesmo diante de um dos maiores acordos socioambientais da história do país — R$ 37,7 bilhões, firmado em fevereiro de 2021 entre a Vale, o Governo de Minas Gerais e o Ministério Público — os resultados concretos ainda estão aquém do esperado. A partir da análise do Portal da Auditoria Socioambiental, que passou a disponibilizar painéis públicos sobre o andamento das ações de reparação, o consultor ambiental da AMIG Brasil, Thiago Metzker, chama atenção para um paradoxo preocupante. “Menos de 40% do valor do acordo foi efetivamente aplicado. A questão que fica é: para onde estão indo esses recursos? Se não é para recuperação ambiental e reparação, para onde eles estão sendo direcionados? Estamos falando de mais de R$ 30 bilhões, dos quais algo em torno de R$ 14 bilhões foi aplicado”, questiona.

Metzker destaca ainda que a lentidão é mais evidente justamente nas áreas mais críticas. “Quando olhamos para o marco zero da tragédia, onde a barragem se rompeu, a auditoria mostra um avanço de apenas 5%. O próprio Rio Paraopeba ainda apresenta várias deficiências. Claro que existem ações em comunidades e territórios, mas a demora nas áreas mais afetadas precisa ser questionada, porque não há avanços significativos onde o impacto foi mais profundo”, completa.

Como está Brumadinho hoje?

Os efeitos prolongados da tragédia sobre a população de Brumadinho são confirmados por estudos acadêmicos. Pesquisa realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no âmbito do Projeto Brumadinho, indica que 70% dos domicílios do município relataram algum tipo de adoecimento físico ou mental desde o rompimento. Sintomas como estresse, insônia, ansiedade, hipertensão e episódios depressivos permanecem recorrentes, e 52% dos adultos passaram por tratamento psicológico ou psiquiátrico após a tragédia. Ao mesmo tempo, 76% das famílias enfrentam dificuldades de acesso a consultas, exames e tratamentos, em uma rede pública pressionada pela alta demanda e pelas transformações no território.

A insegurança sanitária segue marcando o cotidiano. Segundo o levantamento, 77% das famílias vivem com medo constante de contaminação dos alimentos. O estudo aponta a permanência de metais pesados — como manganês, arsênio, chumbo, mercúrio e cádmio — em diferentes matrizes ambientais. A água permanece como o principal vetor de risco: 85% dos domicílios relatam impactos no uso dos corpos d’água, enquanto 75% afirmam que o fornecimento e a qualidade estão comprometidos. A chamada “lama invisível”, expressão que traduz a desconfiança sobre o consumo de produtos originários de Brumadinho, continua presente.

As perdas econômicas também são expressivas. Segundo o professor Ricardo Machado Ruiz, um dos autores do estudo, Brumadinho poderia perder entre R$ 7 bilhões e R$ 9 bilhões de Produto Interno Bruto (PIB) no longo prazo sem o acordo de reparação. Com a aplicação dos recursos, o prejuízo estimado cai para algo entre R$ 4,2 bilhões e R$ 5,4 bilhões, mas não desaparece. A mineração, que antes desempenhava papel central na economia local, foi parcialmente substituída pela própria reparação, que absorveu mão de obra no curto prazo, mas enfraqueceu pequenos negócios, atividades informais e a diversificação produtiva — condição essencial para um futuro mais resiliente.

Nesse contexto, a retomada da mineração na região reacende temores. Em 2025, seis anos após a tragédia, a exploração de ferro voltou ao entorno de Brumadinho com a reabertura da Mina da Jangada, operada pela Itaminas, vizinha à área do Córrego do Feijão. Moradores da comunidade de Jangada demonstram preocupação com o abastecimento de água, temendo o rebaixamento do lençol freático e possíveis contaminações. Para a população local, a reabertura simboliza a continuidade de um modelo que pouco mudou após 2019, gerando insegurança e sensação de abandono.

Diante desse cenário, a AMIG Brasil reforça que não basta divulgar números ou anunciar investimentos. É necessário fortalecer a fiscalização, garantir transparência real, assegurar a correta aplicação dos recursos e promover mudanças legislativas que protejam vidas e territórios. “Sem controle, sem arrecadação justa e sem responsabilidade efetiva, continuaremos contando anos e acumulando tragédias”, enfatiza Marco Antônio Lage.

Sete anos depois, Brumadinho permanece como um alerta não atendido. “A memória das vítimas exige mais do que homenagens: exige justiça, reparação integral e a transformação estrutural de um setor que, enquanto não mudar e não tiver uma ANM estruturada e apta para realizar seu trabalho, seguirá colocando municípios, populações e o meio ambiente em risco”, conclui o presidente da AMIG Brasil.

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